Ciclo sobre"Formas de vida e práticas dos valores: políticas da subjectividade no último Foucault"

September 26, 2016

Resumos e notas biográficas

 

Marta Faustino, “A dimensão ético-política do pensamento de Foucault”

 

Nota biográfica

Estudou Ciências da Comunicação e Filosofia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA). Doutorou-se em Filosofia, variante de Antropologia Filosófica, com a dissertação “Nietzsche e a Grande Saúde. Para uma Terapia da Terapia”, na mesma faculdade. É membro do GIRN (Groupe International de Recherches sur Nietzsche) e do NIL (Nietzsche International Lab). É atualmente investigadora do IFILNOVA, onde desenvolve o seu projeto de pós-doutoramento sobre a noção de terapia no Ocidente, segundo as perspetivas de Friedrich Nietzsche e Michel Foucault. É autora de vários artigos científicos sobre Nietzsche e leciona desde 2010 sobre as filosofias dos Estóicos, Epicuro, Schopenhauer, Nietzsche e Freud.

 

Resumo

Como é bem sabido, Foucault foi, especialmente na década de 80/90, muito criticado por, supostamente, não ter uma concepção positiva de ética, ou, de uma forma mais moderada, por ser difícil – se não impossível – conciliar as suas perspectivas sobre o poder, a sociedade e a subjectividade nos seus primeiros escritos com a preocupação ética manifestada no período final do seu pensamento. E, no entanto, se há algo que caracteriza a obra de Foucault como um todo – e não apenas os seus últimos textos, nos quais as questões éticas aparecem, de facto, de forma mais evidente – é o seu desafio constante dos valores, crenças, estruturas e instituições das sociedades modernas, pondo constantemente em questão as nossas convicções fundamentais sobre nós mesmos e a sociedade em que vivemos. Ora, se encararmos a ética como dizendo respeito não a uma mera obediência a certos códigos de comportamento ou respeito por determinados sistemas de valores e de crenças, mas antes, num sentido foucaultiano, à relação entre nós e nós mesmos e à forma como nos constituímos como sujeitos das nossas próprias acções, então o pensamento de Foucault pode ser considerado ético em todas as suas fases, e a sua concentração tardia na ética do cuidado de si não é senão o ápice de todo o seu empreendimento filosófico. Através da análise de alguns temas centrais do último período do seu pensamento, esta apresentação pretende tornar evidente tanto o compromisso ético e político de Foucault com os desafios do seu tempo ao longo de toda a sua vida produtiva, como a sua utilização da filosofia como arma de resistência e de promoção de liberdade, libertação e domínio individual.

 

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José Caselas, “O sujeito reencontrado: a subjectividade como categoria política” 

 

Nota biográfica

Nasceu em Luanda, em agosto de 1962. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Nova de Lisboa, com o mestrado em Filosofia pela Universidade de Lisboa e doutoramento em Filosofia pela Universidade de Évora sobre Filosofia Contemporânea. É membro do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e a sua área de interesse é a Filosofia Política, nomeadamente a Biopolítica. Tem vários artigos e conferências disponíveis online consagradas a esta temática.

 

Resumo

O objectivo da comunicação é destacar no pensamento de Foucault uma genealogia da dessubjectivação, ou seja, uma outra possibilidade de pensar a subjectividade face à sujeição. De que modo a subjectividade pode ser reapropriada num contexto de relações do poder? Aqui a comparação com Agamben, na recepção que faz de Foucault, é crucial a propósito da noção de forma-de-vida perante a auto-constituição ou a estética da existência. O papel da Parresia política e da vida filosófica como manifestação de verdade nos cínicos serão equacionados nessa subjectividade por vir. Os últimos cursos sobre subjectividade, governo de si e verdade, destacam o sujeito de interesses e o sujeito no neoliberalismo. A forma de anti-estatismo que se configura tem implicações na subjectividade ocidental, nomeadamente no Homo œconomicus.


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Marília Muylaert, “A clínica do comum – desdobramentos de Foucault”

 

Nota biográfica

Nasceu em São Paulo, Brasil. É docente efetiva do Departamento de Psicologia Clínica do Curso de Psicologia da FCL/UNESP- Assis, desde 1989. Psicóloga de formação, é Mestra em Psicologia Social e Doutora em Psicologia Clínica, ambos pela PUC/SP. É autora de livro (Corpoafecto: o psicólogo no Hospital Geral, Ed. Escuta, Edições:1995/2000/2011), de capítulos de livros, artigos e ensaios. É Analista Institucional, Esquizoanalista, Supervisora Clínica e Pesquisadora (Grupos de Pesquisa Cadastrados no CNPq: Acompanhamento Terapêutico – UNIP/SP e Deleuze/Guattari e Foucault, elos e ressonâncias – FCL/UNESP/Assis).

 

Resumo

Diante dos desafios que o esgarçamento do tecido social nos coloca, interessa-nos estratégias que fomentem o pensamento a criar agenciamentos conceituais que possam acompanhar estes processos, delinear fronteiras, criar campos vitais. É através do traçado filosófico que Foucault desenha que podemos deslizar entre as problematizações, fazendo a cartografia do campo e a genealogia dos valores vigentes entre os agenciamentos, nas relações.

A “clínica do comum” é condição da própria clínica, das grupalizações, dos devires diversos. Comum, como espaço público, que conjuga as individualidades, o locus da produção de subjetividade, modos de vida, sensibilidades.

Funciona em cliname, na busca de desvios do padrão e estratégias outras, de modo a captar as oscilações da vontade nos corpos. Estas variações estreitam-se aos regimes de sensibilidade, sendo imposição dos valores que cada corpo sustenta, nas relações.

Trabalhado como dispositivo de análise pensa o controle que incide sobre os corpos e age na qualidade da Vontade, modulando a subjetividade e as práticas. Pensar o corpo concreto como campo de ressonância destas variações, trabalhando com  índices sutis. Ético-estético-político é o paradigma que sustenta a tensão e capta o diagrama fluído das relações, seus movimentos, redes e agenciamentos, as composições das forças, suas capturas, mas também suas linhas de fuga.

 

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Paulo Frazão Roberto, “A parrésia em Foucault”

 

Nota Biográfica

Mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Estudioso da obra foucaultiana, autor de O Conceito de Homem em Foucault e co-autor de “Improvisos de bio-ética de si em Foucault”. Tem publicações na área da Filosofia da Paisagem. Bolseiro de doutoramento FCT, prepara actualmente uma tese sobre o tema da verdade no pensamento de Foucault.

 

Resumo

A parrésia é uma questão de relevo para o «último Foucault», esse Foucault dedicado à subjectividade ética e à verdade. Testemunham isso os últimos cursos no Collège de France – L’herméneutique du sujet (1982), Le gouvernement de soi et des autres (1983) e Le courage de la vérité (1984) –, ou, entre cursos, conferências dadas em Grenoble (1982) e Berkeley (1983), que tomam explicitamente a parrésia como tema.

A parrésia é analisada por Foucault, nas suas dimensões política, ética e filosófica, no horizonte histórico da Antiguidade Clássica e Greco-Romana. Como adjectiva o próprio, trata-se de uma «noção-aranha», na qual se entretece grande parte do seu pensamento dessa fase. No entrecruzamento da problematização ético-política da obrigação de «dizer-verdade», do governo (de si e dos outros) e da relação de si a si, a parrésia é um modo de dizer no qual aquele que fala faz uso da sua liberdade e escolhe a verdade franca em vez da mentira, o risco de morte (no limite) em vez da vida segura, a crítica corajosa em vez da lisonja ou da retórica, o dever ético altruísta em vez do interesse egoísta.

Imbricando subjectividade e verdade, a parrésia é um modo de 'veridição', um ‘veridizer’, cuja principal preocupação reside não tanto na demonstração lógica da verdade enunciada mas na relação ética do sujeito à verdade, no modo como o sujeito se constitui eticamente ao implicar-se na verdade do que diz e manifestando-a na sua própria vida. Em certo sentido, a parrésia surge como um fundamento esquecido da filosofia, no qual a verdade é compreendida essencialmente no bios philosophikos, isto é, no modo de ser ou êthos filosófico. Num outro horizonte histórico, com os seus contornos próprios, Foucault referirá que é no espírito da Aufklärung, enquanto atitude crítica, que de certo modo reemerge esse êthos filosófico da parrésia.

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